quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Solidificação do Belo

Os jardins a florir
E a lua sempre a
Nascer e morrer

Ser ou não ser, eis a questão
Talvez um estrangeirismo aformoseie:
“to be, or not to be”
Ou
Uns e os outros
“Les Uns et les autres”

Adito apenas arte à estética
O belo aos sentidos
Mesmo que apenas conte cinco
A emoção existe

A morte;
O nascer;
A lua;
Os jardins;

Poderá ser:
Bolero de Ravel
Trauteando [meticulosamente]
Imagens em pautas de música

domingo, 5 de setembro de 2010

Ponto vernal

Atapetam-se jardins
De flores
Colhem-se novas cores

- É o ponto vernal

Adossado
Chalaceia o caminheiro
Do inverno

- O solstício ainda vem longe

Solfejam alegria
Andorinhas
Em pomares de fartura

Abrem-se:
Janelas de esperança

sábado, 28 de agosto de 2010

Microretrato

Captei
O instantâneo do olhar
Enorme
Como os olhos

Desfolhei
A verdade desejada
Na Mentira
Sentida

Abstruso
Guardei:
Microretrato

Na dor do saber
A verdade que coube

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Desilusão

Implosão.
A luz liquefez-se
No momento

Dissolvida
A imagem:
Deixou de ser

Vivem agora:
Em mim
Lembranças

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Desabafo [em arrogância] verbal

Eu escrevo:
logo sou, existo
   - penso

Tu não escreves:
logo não és, não existes
  - nunca pensas

Ele não escreve:
logo nunca é, nunca existe
  - nunca pensa

Nós escrevemos:
obviamente somos [estou cá EU], existimos
            - pensaremos [continuo por cá, EU]

Vós não escreveis:
logo nunca sois, nunca existis
  - nunca pensareis

Eles nunca escrevem:
logo nunca são, nunca existem
 - nunca pensarão

Está no vosso olhar a melhor leitura, aquela que mais vos aprouver.
Eu letreio a caligrafia encarnada.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Heurística

Apoiado no lamento
Desalegro-me
Atrido
Desdobro uma noite
Apenas minha.

No céu: a Cassiopeia
Retraça-me
Inclemente
Apela em chama
À heurística.

Interrogo-me entre:
Deuses terrenos.
          \\
Escuto-me entre:
Giestas bravas.
          \\
Digo-me entre:
Pedras afiadas.
          \\
Respondo-me entre:
Teorias de evolução.

Escancelados
Os olhos
Deslumbram uma rosa
Na beleza:
Os espinhos.

Nota de autor: \\ - Pausa Longa

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Antenupcial

A escrita é um encontro
Antenupcial

Saibam as ameixas florir
E as metáforas parir
Belas e monstros

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

1 - Encerebração [meu]

As interrogações não são celibatárias.
Bígamas,
Colhem no seu leito a reflexão e o desespero.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Dilúculo

Acontecia suavemente
O dilúculo.
O cedro amoitava
Um sol: límpido

A gota, minúscula
Da noite lavada
Lembrava
Todos os mares

Deitada sobre o caule
A flor
Espreguiça
Colhe a primeira vida

À janela: o melro

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Representar o pensamento por meio de caracteres

A escrita:
São encontros de palavras
Ordenam-se por interesses
Comunicacionais.

Melieiro, o escrevente
Exorna com:
Traço
Aprumo e labor.

Uma panóplia de
Enxertos requintados
Esteticismo em apelo
Ao regresso às artes

Acaba a coluna em:
Galanteios ao leitor
Um apelo à paixão
Eterna

domingo, 8 de agosto de 2010

Alegoria

As palavras aziumadas
Usam samarra de cordeiro
Propagam-se como vento
Esmordaçam como lobos

Sáfara

Atrás dos olhos
Pendem leitos
Outrora:
Aletófilos e mui verdes

Dissimulam agora:
A sáfara

Calmamente
Cerra as pálpebras
Para a existência

Cai a última lágrima
Morta

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Símile

Rabisco
Afolho as palavras
Na armação do tempo
O arval suspira
Alinho as sementes ao sol
Adubo-as com pequenos reparos
Gulosas em minúsculas
É hora do lusco-fusco
Entrego-me ao sono
Jornaleiro

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Aclasto

Atrás
Dos desfrutáveis olhos
Vadiavam memórias temporais
Contristados
Entressonham lágrimas
Em:
Bem-aventurança

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Vocábulos dubitativos

Sempre que rabisco
Crio retábulos
Esculpidos em arte nobre do dizer

Aos que me contabescem
Deixo uma diaporese

[nasce o silêncio em formato de
interrogação]

Onde acaba o homem
E morre o escritor

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Transumância

Deslacei
Que a inteireza é feita de inverdades
O amor contracena com o desamor

E até o afecto
Fenecido
Lamenta o tempo

É a hora da transumância humana
Sobejam ainda:
Alguns frutos selvagens da primavera

sábado, 31 de julho de 2010

shakespiriano

Matei-me por amor

Uma desgraça
Nunca morre só

Suicídio

O sonho estatelou-se
Desgostoso
Era mais pesado que o ar

Infindo

Das mãos

Eclodiu com suavidade
A ideia
Acorrentada a um fio de azeite
Cresceu
Talvez imenso
Deixou de ser apenas um substantivo comum
Adjectivou-se com superioridade
Excedeu as preposições

Esgotada
Tombou livro

Morte

Tudo amadurece
Com sol
Ou com chuva

A vindima chegará

Marcas eternas

Apaixonei-me
Numa rua que ainda existe
O beijo
Um ferrete para marcar tempo

A janela:
Ainda tem os meus olhos

Cachoeiras

Viagem

O tempo sorveu um corpo
A concupiscência
Que albergou a sensualidade
É agora uma figura geométrica

O varão
Outrora, prazer
Recumbiu-se
Ao futuro

Tempo

Sacudi a noite na primeira janela da manhã
Restos de sonhos

As orvalhadas…
Já se fazem sentir

E as noites outrora lúdicas
Hoje, fadigoso

Depois do Outono

A chuva apronta a faina da terra
Escala o sol
Em cada raio solar
Uma gotícula, uma refrega

Às nuvens:
O Inverno amanha o rigor

A Dama das Camélias

A Dama das Camélias
Colheu um sorriso

Deletreou um desejo
A uma pétala lilás

Alentada

Ainda que remotamente
Um dia

Será menina

Plantação

Plantei uma lágrima
Era azul
Cobri-a de terra pura
*
Um dia
Será
*
Amendoeira em flor
*
Branca